Combustível Verde


Texto Nuno Almeida, em Ornskoldsvik (Suécia)


Na unidade da Etek Etanolteknik, na Suécia, a biomassa florestal é aproveitada num rácio óptimo para produzir combustível. Cada tonelada de aparas de madeira e serradura gera até 250 litros de bioetanol

Álcool e automóveis.
Uma combinação perigosa e indesejada na realidade portuguesa. Mas no Brasil e na Suécia resulta em ganhos significativos no bolso dos cidadãos, quando o álcool é queimado como combustível. Com 1 tonelada de biomassa florestal pode gerar-se até 250 litros de álcool ecológico para transportes, o bioetanol. É uma forma inteligente de aproveitar os resíduos da floresta, em vez de desperdiçar esses recursos, todos os anos, em incêndios que assolam o Sul da Europa no Verão.

Esta lição é ecológica e também faz sentido no plano económico porque o bioetanol é um combustível 40% mais barato do que a gasolina, além de contribuir para a redução das emissões gasosas. Como noutras questões verdes, pregar estes ensinamentos não significa vencer a vontade das pessoas más, mas sobretudo acabar com a passividade das pessoas boas. É dar dinheiro a ganhar às empresas que apostam em novas fontes de energia.

Pisar aparas de madeira
Na refinaria experimental de bioetanol da Etek Etanolteknik situada em Ornskoldsvik, no Norte da Suécia, em vez de se percorrer as instalações a chapinhar os sapatos em poças de petróleo, pisa-se serradura e aparas de madeira.

São estes derivados da floresta que geram combustível através da fermentação e destilação dos açúcares vegetais. Além do bioetanol o processo gera um valioso subproduto: aparas de madeira ressequida que são usadas para aquecimento em lareiras ou obtenção de energia eléctrica em unidades térmicas industriais. Torbjorn Lindgren, responsável técnico desta unidade explica que "o aspecto único da instalação é o facto de utilizar a biomassa florestal existente, tirando partido de matéria-prima barata, enquanto as unidades de bioetanol de outros países usam produtos agrícolas que têm de ser semeados". O custo estimado de produção do bioetanol é de 0,43 euros por litro, mas "será possível reduzi-lo à medida que evoluir a tecnologia da refinaria". Esta unidade resulta de um investimento de 22 milhões de euros avançado por um consórcio privado sueco e três empresas regionais de energia, a Skelleftea Kraft, a Ovik Energi e a Umea Energi.

Os melhores exemplos de utilização do bioetanol vêm da Escandinávia e da América do Sul. No Brasil, os campos de cana-de-açúcar duplicaram a sua produção nos últimos 20 anos e alimentam agora mais de 300 refinarias com uma capacidade para destilar anualmente 15 mil milhões de litros de etanol.

Esta opção pelo verde foi iniciada na década de 70 e conduziu o país à liderança do sector dos combustíveis verdes, estimulando a comercialização local de automóveis ecológicos de fabricantes como a Ford, a Volskwagen, a Renault e a Fiat. A dinâmica de mercado instalada levou a que o bioetanol brasileiro seja hoje significativamente mais barato do que o custo do petróleo antes de ser processado em combustível. O Brasil produz etanol a cerca de 30 dólares o barril, contra os 65 dólares praticados para o petróleo nas Bolsas de Nova Iorque e de Londres.

Motores flexi-fuel
Os novos automóveis com motor do tipo flexi-fuel funcionam com gasolina ou bioetanol. Ambos podem ser misturados no único depósito do veículo, em qualquer proporção. Este argumento joga a favor dos biocombustíveis distribuídos através de qualquer rede de postos. Na Suécia, o carburante E85 é uma mistura de 85% de bioetanol e 15% de gasolina para facilitar o arranque do motor a frio, e está disponível em mais de 200 postos de abastecimento, com previsão de 600 no final de 2006.

As diferenças mecânicas mais importantes nos veículos do tipo flexi-fuel são o sistema de pré-aquecimento do bloco do motor quando a temperatura ambiente é inferior a 15°C, o mapa de ignição variável que é regulado automaticamente em função da percentagem de gasolina e de bioetanol detectada e a utilização de uma liga muito dura nas válvulas do motor.

Os motores dos automóveis existentes podem funcionar com uma mistura até 15% de bioetanol combinado com gasolina ou gasóleo, sem ser necessário sofrerem alterações. Isto já acontece no Brasil, onde toda a gasolina vendida tem uma mistura até 24% de etanol. Nos Estados Unidos favorece-se o gasonol, que contêm uma mistura de 10% de bioetanol obtido a partir do milho. A Ford lançou o modelo Focus Flexi-Fuel movido a bioetanol em Janeiro de 2002 e vendeu 15 mil destes veículos na Suécia, em três anos. Este automóvel "verde" representou já 80% das vendas do modelo Focus naquele país em 2004, devido aos ganhos evidentes no bolso dos consumidores porque o bioetanol é 40% mais barato do que a gasolina. O Ford Focus Flexi-Fuel gasta 10,5 litros de bioetanol aos 100 quilómetros, enquanto o mesmo modelo a gasolina tem um consumo de 7,1 litros, um facto compensado pela redução significativa no preço do biocombustível. Esta conjuntura a favor do bioetanol foi alcançada na Suécia através de um conjunto de incentivos públicos e privados. O governo sueco garantiu a isenção do imposto sobre produtos mineiros e petrolíferos no caso dos biocombustíveis e comparticipa em 20% a construção de refinarias de bioetanol, enquanto as entidades gestoras de parques de estacionamento municipais nas 20 maiores cidades do país aboliram o pagamento de tarifas para os veículos com motores flexi-fuel.

Petróleo verde no Alentejo
As medidas de incentivo aos combustíveis verdes terão de ser implementadas em Portugal devido às metas da Comissão Europeia, que obrigam a usar 2% de gasolina e gasóleo biológicos nos transportes até ao final de 2005, elevando este valor para 5,75% em 2010. O Estado português depende largamente do imposto sobre produtos petrolíferos (ISP) e beneficiou de um aumento superior a 30% do consumo nacional de derivados do petróleo nos últimos 15 anos, mas deverá ser obrigado a abrir mão desta receita no caso dos combustíveis biológicos.

A directiva comunitária que isenta os combustíveis verdes do pagamento da taxa ISP foi rapidamente transposta para Espanha com validade até 2012. Apesar de ter sido aprovada em Portugal em Conselho de Ministros não chegou a ser promulgada e ficou adiada após a mudança de governo. O de José Sócrates poderá rever a medida se não houver garantias de criação de um cluster nesta área, o que significa reduzir a dependência dos cereais estrangeiros através de mais produção em Portugal, e não substituir o petróleo pela importação de outra matéria-prima. Contudo, numa conjuntura de curto prazo, é difícil assegurar um aumento significativo da produção portuguesa de cereais.

Crescer quota de beterraba
Quanto ao biodiesel, um dos projectos nacionais mais avançados após o investimento de 58 milhões de euros, a unidade da Iberol, do grupo Nutasa, em Alhandra, já tem garantias da Petrogal de compra da totalidade da sua produção anual, estimada em 100 mil toneladas, ou 112 milhões de litros. O objectivo é implementar também a recolha de óleos vegetais provenientes da grande restauração e hotelaria, para reaproveitamento energético através da transformação em biodiesel. Segundo estimativas da Quercus, das 50 mil de toneladas de óleos anualmente usadas em Portugal, apenas 10 mil estão a ser recolhidas.

O grupo Nutrinveste aposta na unidade da Tagol, em Almada, para produzir 100 mil toneladas anuais de biodiesel, enquanto a Torrejana deverá assegurar 80 mil toneladas, em Torres Novas, e o grupo Rogério Leal and Filhos poderá gerar até 30 mil toneladas, em Santa Maria da Feira. A unidade da Enersis do grupo Semapa, em Sines, vai fornecer cerca de um terço da sua produção anual de 30 mil toneladas de biodiesel à Petrogal, obtendo o combustível a partir de óleos vegetais. Já o grupo Mota-Engil, que controla a Martifer, avançou para a Roménia um investimento de 60 milhões de euros em parceria com a construtora MonteAdriano, e está a construir uma fábrica de 50 mil metros quadrados com capacidade de produção de 100 mil toneladas de biodiesel a partir de oleaginosas cultivadas em terrenos adjacentes, prevendo facturar 80 milhões de euros por ano.

Além das empresas de refinação de óleos vegetais, as indústrias açucareiras, como a RAR, a Alcântara e a DAI, de Coruche, também têm condições para entrar nos combustíveis verdes. A beterraba do Ribatejo e do Alentejo já preenche a quota nacional de 70 mil toneladas anuais, mas se a Comissão Europeia permitir que o país produza mais para o sector dos combustíveis, compensa-se o efeito recente da quebra de preços, na ordem dos 40%. A beterraba tem uma produtividade elevada de 65 a 70 toneladas por hectare em regadio, contra apenas 2 toneladas do girassol.

O que é o bioetanol?
Combustível obtido com a fermentação alcoólica dos açúcares vegetais o bioetanol é uma fórmula de álcool que é obtida a partir de vários produtos florestais e agrícolas, como a madeira, o milho, o trigo, o sorgo, o amendoim, a soja, a beterraba, a batata doce, o girassol e a cana-de-açúcar. No processo industrial basta juntar algumas enzimas para forçar a decomposição e a fermentação alcoólica dos açúcares destas matérias verdes, que vão depois ser destiladas para se extrair o álcool. Este combustível diz-se ecológico porque não tem origem em matérias fósseis e reduz em 80% as emissões gasosas nefastas. O dióxido de carbono libertado pela queima do bioetanol insere-se num ciclo fechado, tendo sido extraído da própria atmosfera, através da fotossintese, durante o crescimento das plantas e árvores que constituem a biomassa florestal. O biodiesel, ou éster metílico, segue um princípio idêntico à obtenção industrial do bioetanol, ao extrair compostos inflamáveis da gordura animal e dos óleos vegetais da soja, grão, colza, palma e girassol. Quase todos os países em vias de desenvolvimento podem produzir combustíveis verdes a partir de matérias agrícolas e florestais, enquanto as reservas de petróleo estão limitadas a apenas algumas regiões do mundo. A mão-de-obra barata predestina alguns países pobres a encontrar nos biocombustiveis uma boa fonte de receitas.