UM NEGÓCIO SOMBRIOColuna de Henrique Monteiro no Expresso de 2005-04-02QUE RAZÃO leva um ministro a adjudicar uma compra no valor de 538 milhões de euros três dias depois de o seu Governo ter perdido, estrondosamente, as eleições? E que estranho motivo faz com que esse mesmo ministro adjudique a compra a uma empresa para a qual trabalhou e na qual é administrador Dias Loureiro, deputado do PSD, ex-ministro do PSD, presidente do Congresso do PSD? Naturalmente, sem outras informações que não sejam as que foram publicamente divulgadas, não fica em causa a honestidade do negócio e da decisão de Daniel Sanches. Pode acontecer que a escolha seja a que melhor se coaduna com os interesses do País, em matéria de Segurança Interna. Porém, já é suficientemente estranho que a dita empresa tenha sido a única a apresentar uma proposta, já que as outras quatro convidadas, por um motivo ou por outro, desistiram (um desses motivos foi a acusaçõe de que o concurso já teria um vencedor antecipado). Convenhamos, no entanto, que por muito honesto que o negócio possa ser, a verdade é que não parece. E esta questão do ser e parecer não coisa irrelevante, como já Júlio César sabia quando pretendeu separar-se da sua segunda mulher. Eis, pois, que parafraseando este conhecimento antigo, de mais de 2000 anos, se pode dizer que Sanches e Dias Loureiro podem ser sérios... mas não parecem! COMPREENDER a indiferença a que tanto um como outro reagem a este caso é, igualmente, difícil. Certamente para ambos não será coisa de somenos o modo como os concidadãos para eles olham. Dizer o contrário, seria aceitar que não têm escrúpulos. E, no entanto,nenhuma explicação é adiantada para o facto de um contrato de 100 milhões de contos ter sido assinado depois das eleições com uma empresa a que Sanches e Loureiro estão ou estiveram ligados. Mais uma vez, isto em nada diminui a razão que possam ter. Mas, mais uma vez, parece não terem explicação para o facto, o que leva a que as desconfianças aumentem. Basta pensar que 0,1 por cento deste negócio corresponde a mais de 100 mil contos para que cresçam suspeitas que não necessitam de se alimentar da má-fé ou de qualquer antipatia. Há, para além da honestidade, a rectidão, a probidade. Não podem ser palavras, nem sentimentos, nem acções afastados da vida política e da vida pública. Se algo existiu de menos claro é preciso que o castigo seja exemplar. É necessário que outros políticos (sobretudo do PSD) falem sem medo, condenando este procedimento. É necessário que surjam aqueles que não se querem confundir. De outro modo seremos todos a perder. |